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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Luís de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís de Camões

sábado, 3 de setembro de 2011

Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Círculo Vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Machado de Assis

Amor

Quand la mort est si belle, Il est doux de mourir.
V. Hugo

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo

segunda-feira, 19 de maio de 2008

VISÃO

Quando te vejo

Meu dia se ilumina

tua presença doce me fascina

teu sorriso me anima, alucina

e minha tristeza logo se termina.

Quando te vejo

Meu coração como pluma fica leve

Minh'alma branqueja como neve

meus olhos te seguem de um lado a outro

minha dor se abranda, torna-se breve.

Monumento de beleza interna e externa

meiguice quase pura aparência terna

tranqüilidade que nunca se altera

e um mistério em ti encerra...

Não sei se por trás disso tudo

está a bela ou a fera, só sei que

Quando te vejo

meu metabolismo se altera,

e minha felicidade tudo supera.


©Valter Montani

Blog: Valter Poeta

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Mather Incorrigibile

É este estado intenso de gratidão e ternura.
De candura e silêncio. Esta fórmula simples
de quem se anula - e é forte - quase sempre;

(metade de todo o mundo seria pleno, perfeito,
para teus filhos galgarem compassos seguros
nos destinos que escolhesses rumo às alturas).

Este jeito imenso, passos lentos, baixa estatura.
O modo de abrandar - meu espírito impulsivo -
quando vergo o verbo quente e aceso pelas ruas.

É que me tens pelas mãos; sabes me dizer não
desde a infância distante, as lembranças puras.
É esta fortuna que trago. Nunca sei como pago

ao Dono de tudo; ter frutas frescas no deserto:
um bem cheio de mistérios...
.......................................em mãe se configura.

Walter Ramos de Arruda

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade