quarta-feira, 19 de março de 2008

TEMPO DE MORANGOS

_ Tira a mão daí! Larga esta batata! É pro almoço. _ E a deliciosa batata frita esfriava no fogão, enquanto o arroz, o feijão e o bife ficavam prontos... Quando ia pra mesa, estava murcha, chocha e a mãe queria que ele comesse: _ batata faz bem pra saúde... Puro carboidrato, amido... E ele mastigava tristemente o amido, a saúde, não o sabor delicioso da batata quentinha quando sai do fogo.

Nos aniversários se sentavam todos em volta da mesa a enrolar brigadeiros. Ai de quem comesse unzinho só. Eram pra festa. E na hora da festa convidados esfomeados enchiam os bolsos com os desejados brigadeiros. Para as crianças da casa não sobrara nenhum.

As melhores roupas eram para os domingos quando não viam nenhum amigo, nem a garota da escola que queriam impressionar. Como se elas fossem se gastar, se consumir, eram usadas e guardadas para as ocasiões especiais... Ora, ocasiões especiais são as do dia-a-dia. Como saber quando surgirá uma ocasião especial? Quando poderá acontecer da garota mais bonita sorrir pra você e você se sentir assim, bonito e bem arrumado, só domingo? Só feriado?

A mãe, ocupada com a casa, o pai, ocupado com o jornal, seus particulares pensamentos. E o menino vaga entre um e outro, tentando chamar a atenção, inutilmente. Que perda! Os pobres pais, se soubessem aproveitar esses momentos únicos de afeto e intimidade ao invés de passar novamente a vassoura na casa já limpa. Ou ler as mesmas fatigantes más noticia. Ou fazer o que quer que seja sem incluir o amor do menino e os seus grandes olhos tristes. Anos mais tarde, quando ele adolescer, juvenescer, adultecer; quando casado ou formado for pra bem longe, um lugar inacessível qualquer, sem volta para casa, quantas lágrimas de saudades inúteis_ melhor terem aproveitado o tempo da fruta quando era o tempo da fruta. Inútil pedir morango no inverno...

A triste lição do adiamento da felicidade para quando a felicidade não for mais possível: guardar o bolo de aniversário para depois do almoço e depois do almoço ele já estar azedo. Deixar o bife secar na frigideira porque o pai não chegou ainda e quando ele chega já é tarde demais pro bife. Deixar a vida transcorrer sem buscar o melhor dela, e ao querer abraçá-la ela ter se esvaído no ralo da velhice, do cansaço, da doença. A herança que a tia vai dividir fica pra depois. Jovens não sabem gastar. E quando a herança vem, os jovens se fizeram velhos e já nem sabem como gastar...

Quanto desperdício da beleza da vida! Quanto adiamento desnecessário! Dá licença? Peço permissão para enfiar a mão na panela e comer a batata frita ainda quente. No almoço não a quero. Mais tarde não a quero. Quero agora. O tempo é agora. Deixe-me usar minha melhor roupa às 7 horas da manhã de quinta feira, se sujar eu lavo, se estragar, paciência. Comer a sobremesa enquanto não tenho diabetes, com bastante calda, cobertura, creme. Amar enquanto meu coração bate acelerado, mesmo que a pessoa não seja conveniente. Dormir enquanto dormir é um prazer e não tenho insônia. Gastar meu dinheiro, meu tempo, minha energia enquanto respondo ao chamado dentro de mim que diz _ Viva!

Que nunca seja tarde demais. Nem pra mim, nem pra você.

Nádia Daher


Blog nádia daher: poesias coisa & tal

Um comentário:

Poliana disse...

é já é tempo de morangos...
esse texto cabe muito bem na boca, levada boa!